Esta página condensa parte do processo de investigação e criação, em andamento, do programa de pós-graduação da Unicamp (2010/2012), tendo como tema central o labirinto como metáfora do conhecimento de si e do mundo, em diálogo com os demais temas pesquisados na Unicamp. Todos os textos, documentários, vídeos, fotografias, audios, fotomontagens, etc; são de minha autoria, excepto se houver indicação em contrário
Conversações: do dizível ao indizível
As únicas coisas que podemos perceber
são nossas próprias percepções
George Berkley
Ato 1.
A possibilidade é continua.
A disciplina na qual me inscrevi para este semestre integra o Programa de Pós-Graduação em Multimeios da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Intitulada Multimeios e Teoria do Cinema: O universo das imagens técnicas – Elogio da superficialidade, foi ministrada por Ernesto Boccara, com a participação de Rosa Cohen. A proposta do curso consistia em investigar o pensamento do filósofo tcheco-brasileiro Vilém Flusser (1920–1991), realizando um mergulho em alguns dos temas centrais de sua obra: a imagem, os meios de comunicação, os aparelhos técnicos e os processos comunicacionais.
Um dos aspectos que mais me chamou a atenção na leitura de Flusser foi a maneira como o autor desenvolve seu pensamento em camadas, revelando sucessivos níveis de profundidade. As imagens técnicas e os aparelhos que as produzem e difundem passam a ocupar, em sua filosofia, uma posição central na existência humana contemporânea, tornando-se mediadores fundamentais da percepção e da produção de sentido em meio ao cotidiano cada vez mais complexo.
Ao ler a ementa da disciplina, identifiquei uma forte aproximação entre seu conteúdo e as pesquisas que vinha desenvolvendo. Inscrevi-me como aluno especial e tive minha matrícula aprovada. No entanto, em 2 de agosto de 2012, após cumprir parte dos procedimentos acadêmicos, fui surpreendido por uma informação da Diretoria Acadêmica (DAC): eu havia me matriculado em uma disciplina cujo código correspondia a outro componente curricular que havia cursado em 2011.
Embora o conteúdo oferecido naquele semestre fosse completamente diferente, a universidade compreendia ambas as disciplinas como equivalentes para fins de registro acadêmico. Caso permanecesse matriculado, a nova inscrição seria contabilizada como uma rematrícula, anulando administrativamente a disciplina cursada anos antes.
A notícia provocou um sentimento imediato de inquietação. Não se tratava apenas de uma questão burocrática. A possível anulação da disciplina representava, simbolicamente, o apagamento de um período importante da minha trajetória acadêmica: as viagens até a universidade, as pesquisas realizadas, os debates, as leituras compartilhadas, as reuniões, as festas e os encontros que marcaram aquele processo formativo. O problema administrativo fazia emergir uma questão mais profunda sobre memória, percurso e permanência.
Naquele momento, procurei diferentes alternativas para contornar a situação. Frequentar a disciplina como aluno regular oferecia condições importantes para a continuidade da pesquisa, especialmente porque manter os estudos implicava custos constantes com transporte, alimentação, reprodução de textos e livros, além dos pequenos gastos cotidianos que também fazem parte da vida universitária. Esses encontros informais — os cafés, as conversas nos corredores, as celebrações após as aulas — constituem igualmente espaços de aprendizagem e produção de conhecimento.
Todo esse processo transformou-se para mim em uma espécie de vórtice. Fui lançado para questões que até então não havia enfrentado. O susto inicial deu lugar à reflexão, e a reflexão abriu espaço para novas possibilidades de reorganização do percurso.
Foi nesse intervalo de incertezas que surgiu a ideia de aprofundar e estruturar um projeto de mestrado ainda naquele semestre. A situação de impasse acabou produzindo um deslocamento inesperado: ao mesmo tempo em que me afastava de uma estabilidade aparente, obrigava-me a pensar com maior clareza sobre os caminhos que desejava seguir.
Foi justamente nesse estado de deriva que compreendi que algumas experiências acadêmicas não se limitam aos conteúdos estudados. Elas também nos obrigam a confrontar nossas próprias expectativas, nossos limites e as estruturas institucionais que atravessam o fazer universitário. Entre a permanência e a mudança, entre a estabilidade e o deslocamento, a pesquisa também se faz como travessia.
Aluns dias se passaram. Diante da impossibilidade de cursar oficialmente a disciplina, decidi acompanhá-la como ouvinte.
Semanas antes do início das aulas, iniciei uma aproximação com a obra do filósofo que seria estudado ao longo do semestre. Busquei, entre textos de filosofia, teoria da comunicação e das imagens, situar-me no universo conceitual de Vilém Flusser, procurando compreender os fundamentos de seu pensamento e criar condições para acompanhar as discussões propostas em sala de aula.
As primeiras leituras despertaram uma série de inquietações. Qual foi o papel das imagens na constituição das crenças ao longo da história? Em que momento uma imagem deixa de ser apenas representação e passa a organizar nossa percepção do mundo? Como localizar o instante em que uma situação se constitui como pensamento? Como penetrar no movimento inicial da filosofia de Flusser e compreender a ideia central que sustenta sua reflexão?
Mais do que encontrar respostas imediatas, tratava-se de aprender a formular perguntas. A leitura revelava um pensamento que se organizava em camadas, exigindo um constante deslocamento entre conceitos, exemplos e experiências. Era necessário abandonar a expectativa de uma compreensão linear para aceitar um percurso feito de aproximações sucessivas.
Esse processo passou por diferentes momentos: primeiro, o contato com as ideias; depois, o esforço de compreendê-las; por fim, a tentativa de expressar aquilo que havia sido vivido intelectualmente. Compreender um pensamento não significava apenas assimilá-lo, mas permitir que ele reorganizasse a própria maneira de olhar para o mundo.
A linguagem tornou-se a principal ferramenta desse percurso. A fala, a escrita e a imagem passaram a funcionar como instrumentos de organização do pensamento, criando mapas provisórios capazes de estabelecer relações entre conceitos aparentemente dispersos. As palavras ofereciam sustentação para perceber conexões, construir significados e dar forma às experiências produzidas pela leitura.
Ao mesmo tempo, compreendi que pensar é um processo inseparável da experiência sensível. Os sentidos recebem continuamente informações do mundo, alimentando os fenômenos que constituem nossa realidade. A linguagem atua justamente como mediação desse fluxo, organizando percepções, convertendo experiências em conceitos e transformando aquilo que antes era apenas sensação em possibilidade de conhecimento.
Ao final desse primeiro movimento de aproximação, tornou-se evidente que o ponto de partida já não existia mais. O vazio inicial, marcado pelo desconhecimento, havia sido substituído por novas formas de percepção. Não se tratava de dominar completamente o pensamento de Flusser, mas de reconhecer que o próprio ato de pesquisar havia modificado minha maneira de compreender as imagens, a linguagem e os processos de conhecimento.
A pesquisa, nesse sentido, deixava de ser apenas um acúmulo de informações. Ela passava a constituir uma transformação da própria experiência cognitiva, reorganizando a percepção e produzindo novas formas de pensar o mundo.
Trabalho apresentado em 08 de Dezembro / 2012
Ato 2
Traduções entre as línguas
Toda a história da humanidade constitui um permanente esforço de criação e comunicação. Desde que os seres humanos passaram a viver em sociedade, o desenvolvimento das civilizações esteve diretamente relacionado à sua capacidade de produzir, compartilhar e transformar conhecimentos por meio da linguagem.
A linguagem é um recurso próprio da condição humana e encontra-se em constante transformação. As pessoas comunicam-se continuamente, em diferentes contextos e por meio das mais variadas formas de expressão. A invenção da escrita possibilitou a preservação da memória e a circulação do conhecimento para além da presença física dos interlocutores. Com isso, tornou-se possível a comunicação à distância, inaugurando novos modos de transmissão da informação que culminariam, posteriormente, na tipografia, entendida como a técnica de reprodução dos sinais gráficos.
Ao longo da história, inúmeros suportes foram utilizados para registrar a escrita: pedra, madeira, conchas, barro cozido, metais, ossos de animais, cascas e folhas de árvores, talos de bambu, pergaminho, papiro e, posteriormente, o papel. Cada um desses materiais transformou não apenas a forma de registrar o conhecimento, mas também as possibilidades de circulação das ideias.
Na Antiguidade e na Idade Média, o homem passou a conhecer o fenômeno da eletricidade, ainda de maneira limitada. Somente séculos depois esse conhecimento alteraria profundamente as formas de comunicação. Uma notícia que, por volta de 1830, era transportada à velocidade de um cavalo, hoje atravessa oceanos e continentes praticamente à velocidade da luz. A história das tecnologias da comunicação revela, assim, uma contínua expansão das capacidades humanas de produzir, armazenar e compartilhar informações.
Ato 3
Mundo inventado – Mundo recebido
"O ser humano é um intérprete do mundo."
Vilém Flusser
Nascido em Praga, em 1920, Vilém Flusser mudou-se para o Brasil em 1940, onde constituiu família e desenvolveu grande parte de sua trajetória intelectual. Considerado um dos principais filósofos da comunicação e da linguagem, Flusser dedicou-se a investigar os processos pelos quais os seres humanos produzem conhecimento por meio de códigos, imagens e palavras.
Para Flusser, o pensamento é constituído simultaneamente por palavras e imagens. O conhecimento organiza-se a partir dos códigos culturais e das percepções adquiridas ao longo da existência. A língua não apenas descreve a realidade, mas torna possível sua própria apreensão. É por meio dela que organizamos o mundo e lhe atribuímos sentido.
Nesse contexto, a realidade pode ser compreendida como uma construção mediada pela linguagem. Aquilo que percebemos do mundo chega até nós através dos códigos que aprendemos a interpretar. A língua funciona como um espelho das relações estabelecidas entre as coisas, embora não as reproduza integralmente. Seu funcionamento é descontínuo, fragmentário e aberto à interpretação, razão pela qual nenhuma experiência pode ser traduzida de maneira absolutamente linear.
Em Língua e Realidade, Flusser afirma que somos "pequenos portões" pelos quais a linguagem atravessa antes de continuar seu percurso em direção ao desconhecido. Durante essa passagem, acreditamos ser capazes de utilizá-la livremente. Reorganizamos seus elementos, articulamos palavras e formulamos pensamentos. Entretanto, somos igualmente moldados pela própria linguagem. Desde o nascimento, aprendemos a habitar sistemas simbólicos que orientam nossas formas de perceber, pensar e agir no mundo.
As palavras são constituídas por letras; estas, reunidas, produzem significados; os significados, organizados em estruturas mais complexas, formam frases e textos, tornando possível a comunicação entre o indivíduo e o outro. Nesse processo, constituem-se também os modos pelos quais organizamos nossos nexos de compreensão da realidade.
A linguagem estabelece princípios de ordem e cria redes de comunicação. É justamente nesse processamento simbólico que reside uma das maiores potencialidades do ser humano: a capacidade de imaginar e construir novos mundos. A imaginação alimenta-se das energias acumuladas pela experiência — dos instintos, das vivências, das memórias, das impressões, dos afetos, das reflexões e dos fluxos do pensamento. Esses elementos articulam-se continuamente na elaboração dos sentidos que atribuímos aos fenômenos da realidade.
O cérebro transforma essas experiências em imagens mentais e projeções do possível. A imaginação torna-se, assim, um exercício de pré-visão, ampliando as capacidades criativas do ser humano e permitindo-lhe inventar mundos antes mesmo de materializá-los. É justamente nessa potência inventiva que Flusser identifica uma das características fundamentais da condição humana: a necessidade permanente de criar novas formas de compreender, representar e transformar a realidade.
Ato 4
Tudo pode ser duvidado, inclusive a própria dúvida
Para Vilém Flusser, a vida constitui uma interminável viagem em busca de diferentes alvos. Cada objetivo alcançado representa apenas uma estação intermediária, da qual partimos novamente em direção a novas metas. Em sua totalidade, "a viagem é um método sem finalidade". O conhecimento, portanto, não se apresenta como um ponto de chegada, mas como um movimento permanente de investigação, dúvida e transformação.
Foram dezenas de textos consultados na tentativa de compreender essas questões. Entre eles, um chamou particularmente a atenção: O Tempo e como ele Acabará, publicado originalmente no jornal O Estado de São Paulo, em 1962. Nesse ensaio, Flusser inicia sua reflexão com uma pergunta aparentemente simples, mas que acompanha a filosofia desde a Antiguidade:
O que é o tempo?
Embora a pergunta pareça elementar, ela atravessa toda a história do pensamento ocidental. Diversos filósofos buscaram compreendê-la, ainda que nenhuma definição tenha alcançado consenso definitivo. Cada época elaborou sua própria concepção temporal, revelando que o tempo talvez seja menos uma realidade objetiva do que uma forma de organizar nossa experiência do mundo.
Entre essas interpretações, destaca-se a perspectiva kantiana, segundo a qual o tempo constitui uma das formas a priori pelas quais a razão apreende a realidade. Em Schopenhauer, o tempo manifesta-se como expressão da vontade. Para Bergson, diferencia-se entre o tempo mensurável e a duração, compreendida como fluxo contínuo da experiência vivida. Já Heidegger interpreta o tempo como condição fundamental da existência, a partir da qual o ser humano compreende sua presença no mundo.
As diferentes concepções revelam que o tempo não apenas mede os acontecimentos, mas participa da própria constituição da realidade. É através dele que organizamos passado, presente e futuro; criamos valores, hábitos e costumes; estabelecemos memórias e projetamos expectativas. A temporalidade estrutura nossa relação com o mundo e torna possível a experiência histórica.
Nesse percurso, a materialidade da existência apresenta-se de forma descontínua. A história é marcada por sucessivas rupturas, deslocamentos e transformações que alteram continuamente nossas formas de pensar. Os acontecimentos constituem dados brutos da experiência, posteriormente processados pela percepção, organizados pela linguagem e transformados em pensamento.
Em O Mundo Codificado: por uma filosofia do design e da comunicação, Flusser afirma que "um código é um sistema de símbolos" cuja finalidade consiste em possibilitar a comunicação entre os seres humanos. Como os símbolos substituem outros fenômenos, toda comunicação realiza uma mediação: ela não transmite diretamente a experiência, mas sua representação simbólica.
Essa substituição caracteriza toda forma de linguagem. Ao transitarmos entre diferentes códigos, realizamos constantes traduções da realidade. Passamos de um comportamento a outro, de um conhecimento a outro, reorganizando continuamente nossos modos de compreender o mundo. Esse deslocamento produz, muitas vezes, uma sensação de instabilidade, uma angústia diante daquilo que ainda não possui forma. Para Flusser, entretanto, é precisamente nesse intervalo que emerge o ato criador.
A criação nasce do confronto com o desconhecido. Inventar significa produzir novas formas de organizar aquilo que ainda não pode ser plenamente compreendido. Por isso, Flusser aproxima criação e arte: toda invenção constitui uma tentativa de atribuir sentido ao indizível.
O filósofo sugere que o ser humano é criativo justamente porque habita permanentemente a proximidade do abismo. Se nos aproximássemos completamente desse vazio, encontraríamos aquilo que escapa à linguagem: o indizível. Nesse domínio, já não haveria códigos capazes de organizar a experiência nem palavras suficientes para sustentar o pensamento.
Em oposição ao indizível encontra-se o universo do dizível: aquilo que, por meio da linguagem e dos signos, pode adquirir forma, significado e compartilhamento. A criação artística situa-se precisamente nessa passagem entre um campo e outro, transformando experiências ainda difusas em objetos culturais capazes de produzir novas interpretações.
Uma imagem que ajuda a compreender esse processo é a relação entre espelhos e janelas.
Vivemos cercados por ambos. A janela interrompe a opacidade da parede e inaugura um campo de visão. Ela permite observar aquilo que está além do espaço que ocupamos. Como cada janela possui uma posição específica, nenhuma oferece exatamente a mesma paisagem. Cada abertura produz um enquadramento distinto da realidade, revelando que toda percepção é necessariamente parcial.
O espelho, por sua vez, apresenta uma lógica diferente. Ele não conduz o olhar para além de si, mas devolve uma imagem refletida. Sua superfície permanece fechada sobre a representação, oferecendo uma realidade invertida que não pode ser atravessada.
Nesse sentido, as janelas tornam-se metáforas da abertura ao mundo, enquanto os espelhos representam os processos de autorreferência e reflexão. Ambos produzem imagens, porém por mecanismos distintos. A janela amplia o horizonte perceptivo; o espelho devolve a imagem daquele que observa.
Assim como a moldura da janela determina aquilo que pode ser visto, nossos sistemas simbólicos também enquadram a realidade. Toda linguagem constitui um recorte. Nenhuma descrição esgota o real; apenas evidencia determinado ponto de vista. É justamente nesse jogo entre abertura e limite, entre visível e invisível, entre o dizível e o indizível, que Flusser localiza uma das principais tarefas da criação: inventar novas janelas para olhar o mundo.
Processo de Criação – Trabalho Prático
Do roteiro
Para a criação do roteiro cinematográfico, investigaremos os conceitos apresentados no livro Vampyroteuthis Infernalis, publicado originalmente em alemão, em 1987, por Vilém Flusser e pelo biólogo Louis Bec. A obra toma como ponto de partida uma rara espécie do gênero Octopoda, que pode atingir cerca de vinte metros de diâmetro e habita as regiões abissais do mar, servindo aos autores como base para a construção de uma sofisticada fábula filosófica. A partir dos conceitos desenvolvidos ao longo do livro, buscaremos formular questões que orientem a elaboração e a estruturação deste trabalho prático.
Para Flusser, o Vampyroteuthis não nos é estranho. Ele e nós somos variações do mesmo jogo combinatório da programação genética terrestre, compartilhando uma mesma estrutura fundamental dos corpos. Há, nesse organismo, traços da nossa própria existência enquanto vertebrados. Ao longo da obra, o ser humano é observado e criticado sob o ponto de vista do molusco. Flusser estabelece um contraponto entre o Vampyroteuthis e o homem, ressaltando suas diferenças e sua complexidade radical, desde a organização de seus corpos até suas formas de existir.
O Vampyroteuthis é um organismo que espelha o abismo, e o abismo, por sua vez, espelha o seu organismo. Para Flusser, esse abismo está presente desde o nascimento da linguagem, atravessando e interpenetrando o próprio objeto refletido.
A ida ao abismo representa, para Flusser, o ir além: o salto, a superação, aquilo que constitui a natureza de sua filosofia. Essa fábula do ser que habita o abismo constitui um dos eixos centrais de seu pensamento. O autor utiliza a narrativa fabulística para expor sua reflexão filosófica. O Vampyroteuthis, sustentado por sua estrutura orgânica e adaptado às profundezas, vive em permanente contemplação da vertigem.
Do processo
Vazio ativado
E-mail enviado a Saray em novembro de 2012
Pesquisei, nesta manhã, um esboço de texto que pretendo apresentar como trabalho escrito. Ele ainda está em gestação, mas procurei direcioná-lo também para o trabalho prático, buscando descrever algumas situações. Nessas considerações, esbocei temas e experiências vivenciados ao longo deste semestre. Espero poder contribuir, ciente de que ainda sou um iniciante na escrita e de que, ao longo do texto, podem existir equívocos tanto nas palavras quanto no próprio pensamento.
A proposta é mergulhar neste processo de criação, buscando as margens do outro lado do rio das conversações suscitadas pela disciplina, na tentativa de atrair e ser atraído pelo grande rio do indizível.
Com a retenção do pensamento, partimos para o plano do dizível, aquilo que pode ser explicado.
Onde se realiza toda a experiência humana?
Toda alegria e toda tragédia.
Todo ódio e toda paixão.
Todo amor e todo perdão.
A sabedoria e a ignorância.
Toda a verdade e toda a mentira.
Nossas crenças e negações.
Todo o sentido da vida.
Com base nessas reflexões, que nos acompanharam ao longo do semestre, levanto alguns questionamentos a partir de nossas vivências de diálogo, discussões e propostas: compartilhar a memória por meio de entrevistas e depoimentos entrelaçados, buscando acessar os abismos conscientes e inconscientes. Retirar a fluidez da realidade.
Em seu livro Linguagem Total: uma pedagogia dos meios de comunicação, Gutiérrez afirma que a linguagem escrita é um instrumento extraordinário para a construção do pensamento e para a organização do saber humano. Pode-se dizer que a escrita é um dos instrumentos privilegiados da inteligência. Essa reflexão contribui significativamente para o processo de elaboração das perguntas, pois, como já havíamos discutido anteriormente, o objetivo das entrevistas não seria obter respostas prontas ou previsíveis, mas provocar os entrevistados a confrontarem seus próprios abismos e esperanças. Um "talvez" capaz de despertar algo interior, algo que nunca haviam pensado em pensar ou dizer. Um desafio para eles e para nós.
A partir dessas questões, como utilizar os conceitos do Vampyroteuthis na elaboração do trabalho prático? Trata-se de uma categoria distante, desconhecida, pertencente ao universo abissal. Flusser provoca no leitor um sentimento de estranhamento, até mesmo de repulsa. Esse desconforto nasce da tensão entre o conhecido e o desconhecido, algo que faz parte da própria condição humana.
Seguindo essas pistas, passei a estruturar as palavras não mais pela escrita manual, como mostrei na última aula, mas pelos códigos inscritos no computador, através do teclado. Então digito, e o pensamento assume outra forma.
O Vampyroteuthis como lado escuro ou claro?
O entrevistador poderia ocupar diferentes posições, não apenas nas entrevistas, mas também na captação das imagens e dos sons.
O entrevistado como lado claro — e vice-versa.
Buscar as camadas internas dos entrevistados.
Abrir portais adormecidos na realidade. Mas como?
Transformar linhas em raios dispersos. Decodificação. Semelhança. Pontos transformados em linhas. Perspectivas. Desconstrução. Dissolução do técnico. Domínio dos códigos. Abstração. Naturalmente.
A fluidez das entrevistas como destino.
Em A Técnica da Comunicação Humana, Whitaker Penteado descreve a oposição entre escrever e falar, afirmando que "são técnicas diferentes, porque a escrita é mais elaborada. A transcrição fonética, por mais perfeita que seja, não consegue impregnar a palavra escrita com o colorido da palavra falada. Não se escreve como se fala, pois faltam sinais capazes de traduzir a riqueza da linguagem oral, na qual também se utilizam os recursos corporais" (PENTEADO, 1987, p. 219).
Com base nessas observações, como criar formas de contato, diálogo e perguntas capazes de produzir encontros verdadeiros entre entrevistador e entrevistado?
O roteiro
Ao esboçarmos as primeiras ideias do roteiro, discutimos diferentes formas de abordar as pessoas nas ruas. Elaboramos perguntas que buscavam despertar ou provocar nos entrevistados reflexões pouco habituais sobre suas vidas, transitando entre temas como trabalho, família e felicidade até questões de natureza mais existencial.
Após as primeiras versões das perguntas, eu e Saray, acompanhados de um café na lanchonete do IFCH, discutíamos também as filmagens.
Imagens por vir.
Linha contínua e descontínua.
Fragmentação.
Reminiscência.
Luz.
Reflexo.
Espelho.
Movimento da água.
Lua.
Para além.
Formigas.
Massas.
Debatíamos lugares, enquadramentos e cenas para a captação das imagens. Em determinado momento, dois colegas do curso de Filosofia aproximaram-se de nossa mesa para nos cumprimentar. Sentaram-se conosco e, pouco a pouco, passaram a integrar a conversa e o próprio processo de elaboração do trabalho.
Questões filosóficas, científicas e artísticas surgiram naturalmente. Entre elas, discutimos as perguntas clássicas da filosofia, tradicionalmente atribuídas ao pensamento de Platão:
O que é o belo?
O que é o mal?
O que é a verdade?
Essas questões passaram a orientar nosso processo de criação e serviram como eixo para a estruturação do trabalho.
A partir delas, elaboramos outras perguntas:
Quem é você?
O que você deseja para o mundo?
Do que você precisa para ser feliz?
Qual é o significado da vida?
A sociedade caminha para um mundo melhor?
O que poderia lhe prejudicar?
Você acredita que o presente é melhor do que o passado?
O que é uma mãe para você?
O que significa ser filho?
Como você construiria uma sociedade?
O que é o mundo?
Você acredita que o mundo pode ser manipulado?
O que é liberdade?
Existe outra realidade além desta?
Você acredita no destino?
Temos liberdade em nossas escolhas?
O que é o bem?
O que é a verdade?
O que é o espírito?
O que é a alma?
O que é o universo?
O que existe para além dele?
Essas foram algumas das questões inicialmente levantadas. A partir delas, selecionamos aquelas que melhor dialogavam com a proposta e adaptávamos as perguntas conforme o desenvolvimento das respostas dos entrevistados, iniciando sempre com a mesma indagação: Quem é você?
Após a elaboração do roteiro, realizamos três entrevistas-piloto com estudantes da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), buscando compreender como os entrevistados reagiriam às perguntas. Ao analisar as respostas, percebemos que muitas delas reproduziam pensamentos já cristalizados, o que contrariava nossa proposta.
Diante disso, decidimos entrevistar pessoas que, a princípio, responderiam a partir do senso comum, sem uma elaboração prévia ou acadêmica sobre as questões apresentadas. Nosso objetivo era provocar o inesperado, o desconhecido, aquilo que ainda não havia sido formulado.
Optamos, então, por realizar as entrevistas no centro da cidade de São Paulo, uma das maiores metrópoles da América Latina.
São Paulo é o principal centro financeiro, corporativo e mercantil da América do Sul. Fundada em 1554 por padres jesuítas, a cidade tornou-se uma metrópole de relevância mundial, exercendo significativa influência nos campos cultural, econômico e político. É uma das maiores cidades do planeta, e sua região metropolitana reúne mais de 19 milhões de habitantes. Seu nome foi escolhido em referência ao dia 25 de janeiro, data da fundação do Colégio de São Paulo e da celebração, pela Igreja Católica, da conversão do apóstolo Paulo de Tarso.
Após a Independência do Brasil, proclamada às margens do riacho do Ipiranga, onde hoje se encontra o Monumento da Independência, São Paulo recebeu, em 1823, de Dom Pedro I, o título de Imperial Cidade. Desde o final do século XIX, consolidou-se como um dos principais destinos de imigração do país, acolhendo povos oriundos de diversas partes do mundo. Atualmente, abriga algumas das maiores comunidades de descendentes de italianos, portugueses, japoneses, espanhóis, libaneses e outros grupos étnicos fora de seus países de origem, além de concentrar a maior população de migrantes nordestinos fora da região Nordeste.
Essa riqueza cultural, somada aos constantes desafios sociais, econômicos e urbanos enfrentados ao longo de sua história, fez de São Paulo um território de encontros, tensões e transformações. Em sua intensa diversidade, convivem diferentes modos de vida, visões de mundo e experiências humanas, fazendo da cidade um espaço privilegiado para observar como distintas realidades se cruzam, se confrontam e se reinventam continuamente. Embora possua quase cinco séculos de existência, São Paulo permanece, em termos históricos, relativamente jovem quando comparada a muitas cidades da Europa e do Oriente Médio, cuja formação atravessa milênios.
Foi justamente essa multiplicidade que motivou a escolha da cidade como cenário para o trabalho prático. Em um espaço marcado pela velocidade, pela diversidade e pela imprevisibilidade, buscávamos investigar não apenas as respostas dos entrevistados, mas também os processos pelos quais o pensamento se organiza e atribui sentido ao mundo.
Como o pensamento pensa?
Seria possível criar uma realidade dentro dessa realidade caótica?
Se toda ordem nasce da tentativa de reduzir a imprevisibilidade, não seriam nossas narrativas formas de organizar o indizível?
Se, como afirma Fernando Pessoa, "o poeta é um fingidor", todo pensamento também não seria uma forma de ficção, uma construção capaz de produzir realidade?
A poesia talvez seja a fonte primeira da palavra, o lugar onde linguagem e imaginação ainda não se separaram.
Mas em que instante surge a consciência? Em que momento o ser passa a reconhecer a si mesmo e ao mundo? Como nasce essa experiência que chamamos de realidade?
Essas perguntas não buscavam respostas definitivas. Funcionavam como dispositivos de abertura, capazes de deslocar o pensamento dos entrevistados para além das respostas prontas, conduzindo-os a um território de incerteza, imaginação e reflexão — um movimento que dialoga diretamente com o universo filosófico proposto por Vampyroteuthis Infernalis.
A Prática
A língua falada, escrita e imagética – correlações de mapeamento. As palavras tem um vinculo com a existência. Formas de conexões e organizações. Como se constrói o significado? Como se constrói a camada de comunicabilidade entre as palavras e imagens através da voz? Como base nestas questões e reflexões o documentário percorre uma tarde no centro da cidade de São Paulo em busca de perguntas e respostas sobre o mundo, o outro e nós mesmo.
Após a realização das entrevistas, buscamos elaborar um fluxo de acontecimentos, improvisações e dúvidas que orientasse a construção da narrativa. Em um primeiro momento da decupagem, trabalhamos diretamente com o material bruto, organizando-o em blocos de sequências que não obedeciam a uma estrutura linear. Em vez disso, procurávamos estabelecer relações entre uma pergunta e outra, construindo conexões temáticas. Assim, organizamos os blocos a partir de eixos como "Quem é você?" e "O que é o universo?", o que nos permitiu estruturar, gradualmente, a narrativa do filme durante o próprio processo de montagem.
Ao revermos as imagens, percebemos que, diante das perguntas, os entrevistados frequentemente respondiam não apenas por meio das palavras, mas também por gestos, pausas, olhares e expressões de dúvida. Esses instantes de hesitação revelavam uma dimensão sensível do pensamento em formação, como se o corpo buscasse formular aquilo que a linguagem ainda não conseguia expressar.
Na montagem, esses gestos foram aproximados da trilha sonora, dando origem a uma narrativa construída também pelo silêncio. Esse resultado nos surpreendeu, pois evidenciou que os momentos de suspensão, as pausas e as expressões corporais possuíam tanta força dramática quanto as próprias respostas. Na versão final do filme, esses fragmentos tornaram-se elementos fundamentais para a construção da dramaturgia, conferindo à narrativa um espaço de contemplação, dúvida e abertura ao indizível.
A imaginação nasce da necessidade de antecipar, prever e criar possibilidades. Imaginar situações é uma forma de projetar futuros possíveis, elaborar o desconhecido e dar forma ao que ainda não existe. Nesse sentido, o próprio processo de criação revelou-se como um exercício contínuo de aproximação do indizível.
E-mail de:Marcelo Domingues para Saray
Olá! Tudo bem?
Estou enviando o link do nosso trabalho. Ainda permanece aquela questão do título. Essa dificuldade em encontrar um nome revela o quanto estamos sendo atravessados pelo próprio processo de criação. Algo semelhante aconteceu com a escritora Clarice Lispector que, ao tentar nomear seus desejos, escreveu: 'Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.'
Talvez possamos pensar em algo que se aproxime da inexistência das coisas, ou de sua invisibilidade e imaterialidade. Algo de que conversamos ontem, que se aproximaria do vento, de seus percursos e passagens... Ainda não sabemos.
Vamos conversando sobre isso e, se encontrarmos algo, podemos incorporar à finalização da montagem.
Aliás, depois de um breve distanciamento da nossa maratona de trabalho, assisti novamente ao filme hoje e gostei bastante do resultado como um todo. Claro que ele continua aberto aos ajustes.
A partir da nossa última conversa de ontem, fiz aquelas mudanças."
Esse e-mail evidencia como o processo de criação ultrapassava as questões técnicas da realização audiovisual e alcançava dimensões mais profundas da linguagem. A dificuldade em nomear o filme não era apenas uma escolha estética, mas fazia parte do próprio percurso criativo. O título deixava de ser um elemento meramente identificador para tornar-se uma síntese conceitual da experiência vivida durante a realização do trabalho. A referência a Clarice Lispector reforça justamente essa impossibilidade de nomear plenamente aquilo que ainda está em processo de formação, sugerindo que a criação artística habita um espaço onde as palavras frequentemente chegam depois da experiência.
Veja ai o que acha: http://www.youtube.com/watch?v=BCxSsHvkMN8&feature=youtu.be
E-mail de Saray:
Marcelo!! achei aqui umas mudanças...
1. a passagem do homem da poesia quando esta se apresentando
2.tirar as perguntas que repetem e começar já com o cara do boné amarelo
3. Ajustar as entradas da musica do céu e do reflexo
4. Cortar na parte que a mulher de cabelo preto fala: uma ração de ser...
5. Eu tiraria ao bruno da primeira parte... Quando ele fala: conscientização do mundo
6. Depois da mina falando: deus é o universo... Colocar aquele cara que fala: todo o que se pode ver e ouvir falar... e ai depois a mulher que diz : me arrepia.... Depois o cara da poesia falando outras realidades e acabamos com o bruno... que vc acha??
7. Deixaria um pouco mais tempos os vídeos dos gestos das pessoas....esperando mesmo o tempo da musica.... ( mas isso podemos fazer tbm depois)
8. Trocaria a ultima imagem da lua, que vem depois do vento, por a outra imagem do zoom da lua... Sabe qual?? y tentaria meio que parar a imagem da lua antes da terra aparecer...
E-mail encaminhado a Saray:
Oee, to aqui fazendo algumas montagens... O texto é de Manoel de Barros, que cito no trabalho escrito. Saio daqui a pouco p o centro, quando voltar, finalizarei o vídeo... Se tiver mais alguns apontamentos, me envie...
Após este e-mail encaminhado a Saray, e também assistir as imagens que havia captado no lago ao lado da Unicamp, surge um outro documentário, o qual foram utilizados textos e poesias do poeta brasileiro Manuel de Barros. Encantamento. Ilusão reinventar. Abordagem dispersa em conflito...
s formas expressivas colocam o pensamento em movimento. Há um estado ontologicamente suspenso que antecede a formulação das ideias, um intervalo em que o pensamento ainda não encontrou linguagem, mas já se anuncia como potência.
Para Vilém Flusser, a tradução estabelece um diálogo permanente com as fronteiras do conhecimento. Traduzir não significa apenas transpor palavras de um idioma para outro, mas deslocar sentidos entre diferentes sistemas de linguagem: da literatura para o cinema, do cinema para a literatura, da imagem para a palavra ou da palavra para a imagem. Toda tradução é também uma interpretação, uma operação criativa que inevitavelmente transforma aquilo que traduz.
Surge, então, uma questão: o que trago para mim daquilo que não me pertence? Como me aproprio da experiência do outro sem anulá-la? Apropriar-se não significa reproduzir, mas reinterpretar, permitindo que o encontro entre diferentes linguagens produza novos significados.
Tudo o que constitui nosso cotidiano apresenta-se como fragmentos de realidade. Somos usuários desses fragmentos, organizando-os continuamente por meio da memória, da imaginação e da linguagem. A realidade não nos é dada em sua totalidade; ela se manifesta em partes dispersas que buscamos conectar para produzir sentido.
As conexões, as passagens e mesmo as divergências constituem um exercício permanente de apreensão do mundo. Somos afetados pelos sentidos antes mesmo de compreendermos intelectualmente aquilo que experimentamos. O pensamento organiza essas afecções, transformando percepções em linguagem, conceitos e narrativas.
Assim como as palavras se articulam em frases, os pensamentos se organizam em movimentos que percorrem os sentidos. Pensar é estabelecer relações, criar ligações entre experiências dispersas e construir uma ordem provisória diante da complexidade do real.
Mas onde surgiu esse cérebro que anseia pelo conhecimento? Que ser é esse que busca compreender a si mesmo? Quais comportamentos o constituem? Qual é, afinal, a natureza do pensamento?
A palavra atua como mediação entre a experiência e o mundo. É uma maquinaria em constante movimento, capaz de organizar o pensamento e atribuir forma ao que antes era apenas sensação ou intuição.
No entanto, há limites que permanecem intransponíveis. O passado é inalcançável, pois só retorna como memória, sempre reconstruída. A realidade também é inalcançável em sua totalidade, uma vez que toda percepção é mediada pelos sentidos e pela linguagem. Entre o mundo e sua representação existe uma tensão permanente, uma contorção inevitável, por vezes violenta, que constitui a própria condição do pensamento e da criação.
“(…) E, aquele Que não morou nunca em seus próprios abismos Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas Não foi marcado. Não será exposto Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.” Manoel de Barros
O mundo meu é pequeno, Senhor.
Tem um rio e um pouco de árvores.
Nossa casa foi feita de costas para o rio.
Formigas recortam roseiras da avó.
Nos fundos do quintal há um menino e suas latas maravilhosas.
Todas as coisas deste lugar já estão comprometidas com aves.
Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os besouros pensam que estão no incêndio.
Quando o rio está começando um peixe,
Ele me coisa
Ele me rã
Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter os ocasos. (Manuel de Barros)
Venha ser o fluxo.
Fluxo como movimento contínuo da percepção. Uma experiência interna que permite ao entendimento e ao cérebro estabelecerem diferentes formas de contato, relação e diálogo com o mundo. Perceber é colocar-se em trânsito, atravessado por aquilo que nos afeta antes mesmo de ser nomeado.
Entre o mundo inventado e o mundo recebido, constrói-se a experiência humana. O primeiro nasce da imaginação, da linguagem e da memória; o segundo apresenta-se como aquilo que nos antecede, impondo-se à nossa existência. Pensar talvez seja justamente o exercício permanente de negociação entre esses dois mundos.
Duvido que duvido.
Tudo pode ser colocado em dúvida, inclusive a própria dúvida. Nesse movimento, o pensamento retorna continuamente sobre si mesmo, interrogando suas próprias certezas e revelando que nenhuma verdade permanece absolutamente estável. A dúvida deixa de ser um obstáculo e torna-se condição para o conhecimento.
Há, contudo, uma dimensão que resiste à linguagem: o indizível. Aquilo que não pode ser plenamente articulado, que escapa às palavras e permanece como experiência. A "coisa em si", aquilo que existe para além de nossas representações, conserva sempre uma parcela inacessível.
Nesse território encontram-se também o luto, a diferença, o não-eu, o espírito, o sujeito e o próprio "eu". Todos aparecem como experiências limítrofes, atravessadas pela linguagem, mas nunca completamente capturadas por ela. O sujeito constitui-se justamente nessa tensão entre aquilo que consegue dizer e aquilo que permanece silencioso.
Talvez seja nesse intervalo — entre o dizível e o indizível, entre o mundo recebido e o mundo inventado, entre o eu e o outro — que o pensamento acontece, como se fosse um fluxo permanente de percepção, interpretação e criação.
Capas
Leituras
FLUSSER, Villém. O Mundo Codificado: por uma filosofia do design e da comunicação. Organização Rafael Cardose. Tradução: Raquel Abi-sâmara. São Paulo: Ed. Cosaic Naify, 2007
_____________. Língua e Realidade. São Paulo: Ed. Herder, 1963 FLUSSER, Villém e BEC, Louis Vampyroteuthis Infernalis. São Paulo: Annablume, 2011
GUTIERREZ, Francisco P. Linguagem Total: Uma pedagogia dos meios de comunicação. 3ºed. São Paulo: Sumnus, 1978
PENTEADO, Witaker Jr. A técnica da comunicação humana. 10º ed. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1987
Sites:
http://textosdevilemflusser.blogspot.com.br/2008/08/do-tempo-e-como-ele-acabar.html Assado em 15 de Novembro de 2012
http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A3o_Paulo_(cidade) Acessado em, 11 de Dezembro de 2012























